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Desafios de um periódico científico jovem de instituição pública rumo à internacionalização: o caso da Revista Fitos Eletrônica. Challenges of a young scientific journal of public institution towards internationalization: the case of Revista Fitos Elect
ROSANE DE ALBUQUERQUE DOS SANTOS ABREU, José Luiz Mazzei da Costa, Eugênio Fernandes Telles, Yolanda de Castro Arruda

Última alteração: 2017-10-29

Resumo


Resumo

O estudo de caso sobre a Revista Fitos Eletrônica, quanto ao processo de internacionalização, revelou o caminho e os desafios pelos quais o periódico tem trilhado. Baseando-se na pesquisa de Borini e Ferreira (2015), o estudo apontou que pressões institucionais e participação em redes de relacionamento internas e externas são fatores que promovem a internacionalização.

Palavras-chave: Internacionalização, Indexação, Visibilidade, Rede de relacionamentos

Abstract

The case study on Fitos Eletrônica Journal, regarding the process of internationalization, revealed the path and the challenges that the journal has been following. Based on the research by Borini and Ferreira (2015), the study pointed out that institutional pressures and participation in internal and external relationship networks are factors that promote internationalization.

Keywords: Internationalization, Indexing, Visibility, Networking

No evento da ABEC, em 2015, a equipe da Revista Fitos Eletrônica (RFE) apresentou em pôster, um estudo de caso, sobre os desafios na mudança do processo de editoração de impresso para o eletrônico. Após o estabelecimento online do periódico, em 2014, a meta principal era cumprir todo o processo editorial, da submissão à publicação, pelo Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas OJS/SEER. No que se refere à estrutura editorial em si, seguiu-se àquela estabelecida para o periódico em modalidade impressa e tentou-se adequar ao sistema eletrônico.

Meadows (2001) indica que este movimento não foi exclusivo da RFE, mas uma prática natural dos editores que se propõem fazer esta transposição.

Editores e outros profissionais envolvidos no processo de comunicação científica tendem a ver a publicação em forma eletrônica simplesmente como publicação impressa transferida para um novo meio eletrônico para tratamento e disseminação.

Nesses últimos tempos, profundas mudanças na comunicação e na produção científica brasileira foram identificadas, como: crescimento quantitativo dos periódicos brasileiros online (BORINI e FERREIRA, 2015), emergência do Movimento de Acesso Aberto, proliferação de repositórios institucionais e temáticos, entre outros.  No que se refere especificamente à comunicação científica, o contexto editorial caracteriza-se pela competitividade, com influência dos grandes Publishers, exigindo-se aos periódicos, tornarem-se cada vez mais profissionalizados e internacionalizados.

O presente trabalho tem por objetivo apresentar um estudo de caso, relatando os desafios e as estratégias usadas na RFE, visando à internacionalização.

Internacionalização de periódicos científicos brasileiros

Nos últimos anos, estudos revelam um crescimento quantitativo da produção científica brasileira (PACKER, 2011; VALÉRIO, 2005). Borini & Ferreira (2015) destacaram que a principal questão não está propriamente no volume publicado, mas na veiculação de artigos qualificados. Acrescentam, ainda, que um dos critérios que marca a relevância de um artigo é o grau de sua internacionalização. Tais autores consideram que a internacionalização dos periódicos pode ser analisada por três direções: a hospedagem de periódicos nacionais em influentes publishers internacionais; a internacionalização auto conduzida, mas procurando enquadrar as revistas nas bases de dados abertas como SciElo e Redalyc; e a obtenção de indexação em bases como a Thomson Reuters (JCR) e Scopus (H-index).

Para os periódicos científicos, a indexação significa o seu reconhecimento (PACKER, 2011). Para tanto, é fundamental que se empreenda um trabalho sistematizado na organização das citações dos artigos em outros periódicos, especialmente os internacionais, com vistas à ampliação de sua visibilidade, com resultados nos índices de impacto. Costa apud Borini & Ferreira (2015) afirma que a produção científica brasileira, em 2012, era pouco internacionalizada. Os pesquisadores brasileiros, em sua maioria, têm sido citados em periódicos nacionais e têm dificuldades em publicar nos periódicos internacionais.

Borini e Ferreira (2015), em estudo sobre a internacionalização de periódicos da área de administração, consideram duas categorias básicas que norteiam o processo de internacionalização de um periódico, a saber: pressão do ambiente institucional e a inserção em redes de relacionamentos.

 

Na primeira categoria, os autores identificam a influência da CAPES, exercendo pressões e impulsionando a internacionalização dos periódicos com a exigência de indexação em bases internacionais reconhecidas (Scopus e a Thompson Reuters), o que amplia o fator de impacto dos periódicos. Outra pressão da CAPES é a padronização dos periódicos, pois se considera como modelo de excelência as revistas classificadas nos estratos mais altos. Outro exemplo de padronização das revistas é a adoção do Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas–SEER/IBICT, software recomendado pela CAPES, desenvolvido para gerenciamento e publicação de revistas eletrônicas, que permite uma melhoria na avaliação da qualidade dos periódicos, e maior rapidez no fluxo das informações. A segunda categoria proposta por Borini e Ferreira (2015), refere-se à inserção do periódico em redes de relacionamentos. Ressalta-se o papel estratégico dos editores, como interlocutores com o corpo editorial e consultores ad hoc, para atrair membros internacionais e de renome em sua área de atuação para fazer parte da rede.

Situação de indexação de periódicos relacionados ao escopo da RFE

Quanto à indexação dos periódicos que publicam artigos diretamente relacionados ao escopo da RFE, Plantas Medicinais e Farmácia, em pesquisa realizada em algumas bases de dados internacionais verificou-se que os periódicos científicos brasileiros correntes, listados na base Ulrichsweb (2017) e com grande número de publicações sobre plantas medicinais, são classificados em B2 (16%) a C na área de Farmácia, sendo a maioria em B3 (50%). Não diferentemente de periódicos em outras áreas, são reconhecidos com maior qualificação na área interdisciplinar, principalmente em 1 a 2 níveis, embora nenhum periódico da área tenha qualificação acima de B1. Uma característica importante é que 60% são de acesso aberto, dentre estes apenas 2/3 passam por revisão de pares no processo editorial e, apenas, dois periódicos não são mais publicados em versão eletrônica (ULRICHSWEB, 2017).

Este reconhecimento, de razoável a fraco, não é tratado diferentemente nos poucos periódicos renomados da área e publicados em demais países da América Latina, principalmente no Chile, Costa Rica e Cuba. À exceção de apenas quatro brasileiros, os periódicos da América Latina estão indexados na Scopus (2017), enquanto a Principal Coleção da Web of Science (2017), assim como na base SciElo (2017), apresenta metadados de cerca da metade dos periódicos da área. Afora única exceção, os periódicos da América Latina que não estão indexados na Scopus são os únicos em classificação C pela CAPES na área de Farmácia. Este panorama demonstra o quanto a Revista Fitos Eletrônica ainda precisa caminhar, assim como evidencia os desafios a serem enfrentados para conquistar uma qualificação de reconhecimento internacional, mesmo tendo características pertinentes de versão eletrônica de acesso aberto, com revisão pelos pares no processo editorial. O esforço para conquistar a indexação com a Scopus é, certamente, a melhor opção de passo inicial.

Isto posto, um periódico científico, para chegar à internacionalização, tem que ter a percepção das pressões institucionais e estar fortemente inserido em rede externa (BORINI e FERREIRA, 2015). Assim, a internacionalização não se dá de forma rápida, mas em várias etapas. Para tanto, a equipe editorial da RFE apresenta abaixo um estudo de caso, que tem como meta a internacionalização.

 

Metodologia

Para apresentar o estudo de caso foi realizada pesquisa documental, com buscas e análise de documentos editoriais, memórias de reunião, relatórios, projetos, além de observações registradas no próprio processo de trabalho. O material foi lido e analisado, e seus resultados tomaram por base as duas categorias propostas por Borini e Ferreira (2015).

O caso da Revista Fitos Eletrônica

A Revista Fitos Eletrônica é um periódico científico, interdisciplinar, trimestral, em acesso aberto, com foco em pesquisa desenvolvimento e inovação (PD&I) de medicamentos da diversidade vegetal. É editada em formato eletrônico, desde 2014, pelo Núcleo de Gestão em Biodiversidade e Saúde (NGBS) de Farmanguinhos/Fiocruz.

O NGBS tem por missão a promoção da inovação em medicamentos da biodiversidade, desenvolvida através de um sistema nacional de redes - RedesFito,  organizada a partir de arranjos produtivos locais, identificados nos seis biomas nacionais. Para o desenvolvimento de sua missão, o NGBS promove, em articulação com o setor de ensino da unidade, um curso de pós-graduação lato sensu, entre outros serviços.

Há que se destacar que o NGBS é um núcleo do Instituto de Tecnologia em Fármacos/Farmanguinhos, unidade da Fiocruz responsável pela produção de medicamentos, que tem por missão a promoção da saúde pública, por meio da geração e difusão de conhecimentos, do ensino, da pesquisa, do desenvolvimento tecnológico e da produção de medicamentos. Na área de ensino, Farmanguinhos promove um curso de mestrado profissional em Gestão, Pesquisa e Desenvolvimento na Indústria Farmacêutica e dois cursos de especialização lato sensu, sendo um deles o do NGBS citado acima.

A Revista Fitos Eletrônica recebe apoio financeiro, exclusivamente, de Farmanguinhos e sofre, portanto, as consequências geradas pelas crises no setor público.

Os desafios e estratégias

Como foi dito em 2015, o desafio inicial da RFE foi o de implantar definitivamente o processo editorial através do SEER/IBICT, sem fazer alterações na política e na estrutura editorial. Atualmente, novos desafios emergem, visando à internacionalização, a saber: obter indexação em novas bases de dados nacionais e internacionais; aumentar a visibilidade; melhorar a qualidade dos manuscritos e ampliar a rede de relacionamentos com pesquisadores e instituições nacionais e internacionais.

Estratégias usadas pela equipe editorial

  • Adequação do foco e escopo

Anteriormente, o foco e escopo não colocavam em destaque a pesquisa, o desenvolvimento e a inovação em medicamentos da biodiversidade e deixava transparecer que a RFE era mais uma publicação sobre plantas medicinais. Além disso, restringia-se aos biomas brasileiros, deixando de fora os demais biomas da terra, fundamentais para a internacionalização.

Um estudo sobre as áreas do conhecimento do CNPq com interface ao foco e escopo da RFE, revelou a necessidade de ampliação de áreas para a recepção de manuscritos.  Assim, foram incorporadas 4 novas áreas, reafirmando o caráter interdisciplinar da RFE.

  • Ampliação da visibilidade

Para facilitar a localização rápida de autores e artigos na rede, exige-se uma identificação de autor (ORCID, Research Id, etc), assim como todos os artigos publicados pela RFE recebem DOI.

A apresentação correta das citações e referências torna-se essencial. A RFE informa a identificação ISSN ou ISBN (periódicos e livros) de todas as referências citadas em seus artigos, bem como os hiperlinks do DOI (CrossRef), PubMed e de sites citados e consultados, oferecendo aos autores/leitores o acesso imediato ao documento citado. Procura-se manter todas as referências acessíveis, com a verificação e correção, no momento da revisão final. Ainda, para a visibilidade, utiliza-se uma Fanpage no Facebook que publica sumário e notícias correlatas. O sumário de cada edição é enviado por e-mail a uma base de aproximadamente 3000 usuários.

Prioriza-se, ainda, a participação em eventos científicos para divulgação da revista. Há ainda um folder eletrônico usado por diferentes agentes para captação de artigos.

  • Melhoria da Qualidade dos Manuscritos.

Os critérios para submissão e avaliação dos manuscritos tornaram-se mais exigentes. Visando a internacionalização da RFE, fez-se a mudança da norma da ABNT para Vancouver, o que gerou reformulação nas instruções aos autores.

  • Promoção da rede de relacionamentos

O papel estratégico dos editores na internacionalização de periódicos é importante como uma cadeia de relacionamento direcionados para captação de artigos de qualidade. Avaliando a atuação de cada editor, com critérios definidos, foi concluída a necessidade de renovação do Corpo Editorial e dos Editores de Áreas, o que ocorreu 2017. Hoje a coordenação científica da revista é constituída por 3 editores de Farmanguinhos, contando com a colaboração de 12 editores das áreas de submissão. A escolha destes editores foi definida por critérios de reconhecimento acadêmico e da vinculação aos programas de pós-graduação de universidades e instituições diversas. Assim, formou-se uma rede de editores distribuída por vários estados e instituições de ensino e pesquisa do Brasil. A interlocução entre esses editores ocorre não apenas para as questões científicas, mas para as questões editoriais mais amplas. Para tanto, a editoria executiva mantem um comunicado mensal, em que são informadas as demandas, as dificuldades e as estratégias usadas para a superação destas e realiza reuniões virtuais, sempre que necessário.

Na estratégia de interação em rede, a participação efetiva da equipe editorial da RFE no Fórum de Editores da Fiocruz reforça a importância da interação entre os editores das demais revistas da instituição. Há a preocupação, também, em alimentar com notícias e informações o Portal de Periódicos da Fiocruz.

Conclusão

Face ao que foi exposto, fica explícito o objetivo da equipe editorial da RFE de levar o periódico à internacionalização. O estudo de Borini e Ferreira (2015) veio corroborar as decisões editoriais, revelando que as estratégias implementadas na RFE levaram em conta a pressão do ambiente institucional, assim como a preocupação com a construção da rede de relacionamentos.  Este mesmo autor concluiu que os periódicos mais propensos à internacionalização são aqueles que trabalham segundo essas categorias. Muitos passos ainda precisam ser trilhados, mas fica a percepção de que o caminho trilhado pela RFE tem sido apropriado.

Referências

BORINI, F. M & Ferreira, J. Internacionalização de periódicos científicos brasileiros: estudo de caso à luz da teoria de redes e da teoria institucional. Revista Íbero-Americana de estratégia – RIAE, Vol 14, N.$. Outubro/Dezembro. 2015, e-ISSN: 2176-0756. DOI: 10.5585/ijsm.vl4i4.2252. Acesso em 02/10/2017.

MEADOWS, J. Os periódicos científicos e a transição do meio impresso para o eletrônico. Revista de Biblioteconomia de Brasília, V. 25, N.1, p. 5-14, 2001, Acesso em 20/09/2017.

PACKER, A. L. Os periódicos brasileiros e a comunicação da pesquisa nacional. Revista USP, 89: 26-61, 2011. Acesso em 02/10/2017.

VALÉRIO, P.M.C.M. Periódicos científicos eletrônicos e novas perspectivas de comunicação e divulgação para a ciência. Tese de doutorado apresentada ao programa de Pós-graduação em Ciências da Informação, convênio UFRJ/ECO e CNPq/IBICT, Rio de Janeiro, 2005.

 

SCIELO, Scientific Electronic Library Online, 2017. Disponível em: <http://www.scielo.org/php/index.php>. Acesso em: 06 out. 2017.

SCOPUS, 2017. Disponível em: <https://www.scopus.com/search/form.uri?display=basic>. Acesso em: 06 out. 2017.

ULRICHSWEB. Global Serials Solutions, 2017. Disponível em: <https://ulrichsweb.serialssolutions.com/>. Acesso em: 05 out. 2017.

WEB OF SCIENCE. Principal Coleção, Clarivate Analytics, 2017. Disponível em: <http://apps-webofknowledge.ez68.periodicos.capes.gov.br>. Acesso em: 06 out. 2017.

REDESFITO, http://redesfito.far.fiocruz.br. Acesso em: 02/10/2017.

 


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